Descrição do livro
Em busca do tempo perdido dispõe os sete livros originais em apenas 3 volumes. São dezenas de personagens que se cruzam em histórias de amor, ciúmes e inveja, na França da Belle Époque. A narrativa vai passando do detalhe ao painel e do painel ao detalhe sem projeções definidas, num constante reajuste de tudo aquilo que nunca será perfeitamente ajustado. A obra é um retrato da sociedade de uma época, um mergulho no universo da burguesia francesa que permite que o leitor sinta as divergências entre nobres e burgueses.
Resumo de Enredo
Por todas as razões acima expostas, o enredo tem uma importância secundária
na obra máxima de Proust. A história propriamente narrada de Em Busca do
Tempo Perdido pode ser resumida em poucas páginas e terá interesse maior
apenas para quem não possui qualquer noção da obra. Pois na verdade o que
interessa não são os encadeamentos narrativos e episódicos e sim a análise
psicológica, as conexões estabelecidas e, acima de tudo, aquela transcendental
peleja do espírito criador, que luta para se afirmar e deixar a marca da sua
genialidade, contra o tempo que tudo arrasta e destrói. Aliás, Proust surgiu na
literatura quando diversos escritores (e não só franceses) já haviam observado a
questão do tempo e buscavam minimizar a importância do enredo. Era um
caminho a trilhar para evitar a todo custo as histórias "certinhas", com princípio,
meio e fim, caminho que muito se diversificou desde então. Em todo caso,
convém dar uma idéia geral do enredo de Em Busca do Tempo Perdido.
No Caminho de Swann dispõe- se em três partes: na primeira, "Combray", vemos
a infância do Narrador, suas recordações de Combray despertadas pela
madeleine, sua aflição noturna à esperado beijo de despedida da mãe, a
descoberta que faz da existência de dois lados (ou caminhos) de Combray, a
partir das duas saídas diversas de casa- o lado que segue pela casa de Swann e o
lado de Guermantes, seu oposto- , para ele igualmente opostos e irreconciliáveis;
e a descrição de ambos. Em "Um Amor de Swann", a análise de um amor, e
sobretudo do ciúme masculino, através da história da ligação amorosa de Charles
Swann e Odette de Crécy. E em "Nomes de Lugares: o Nome", o Narrador vai
descobrindo tudo o que se esconde sob a magia dos nomes de pessoas e cidades.
Vemos seus jogos com Gilberte, filha de Charles e Odette, nos Champs- Ely sées;
depois, sua admiração pelos pais dela, principalmente pela Sra. Swann. E a
constatação da impossibilidade de recuperar o tempo já passado, quando
regressa, adulto, certa ocasião, ao Bois de Boulogne onde tantas vezes vira a Sra.
Swann a passear na sua carruagem.
''À Sombra das Moças em Flor'' divide- se em duas partes. Em "Ao Redor da
Sra. Swann" mostra- se o Narrador já íntimo dos Swann, porém Gilberte não o
ama. E ele, depois de muito sofrer, acaba esquecendo- a. A segunda parte,
"Nomes de Lugares: o Lugar", já pelo título aponta para uma conexão com a
parte final do livro anterior. Os nomes voltam a encantar o Narrador, mas são os
lugares que o fascinam, notadamente o balneário de Balbec, onde passa uma
temporada de verão. Ali conhece Albertine e as outras "moças em flor" do seu
grupo. Prefere Albertine, porém só muito mais tarde se apaixonará por ela. Em
''O Caminho de Guermantes'', o Narrador começa a freqüentar salões
aristocráticos e da alta burguesia. Ama a duquesa de Germantes mas não é
correspondido. Sofre a mágoa enorme de perder sua avó materna, mas com o
tempo vai se esquecendo dela devido ao fenômeno que denomina "intermitências
do coração", ou seja, os períodos cada vez mais longos de esquecimento que
atravessa, preocupado com desfrutar apenas o momento presente. Percebe
todavia que o mundo da alta- roda é vaidoso, cruel e egoísta, e sente- se
decepcionado.
Tudo aquilo em que havia acreditado e que amara se desfaz e se degrada. Em
''Sodoma e Gomorra'', o Narrador penetra no universo infernal da inversão
sexual, tanto masculina (Sodoma) quanto feminina (Gomorra). Embora haja
pensado em livrar- se de Albertine, passa a amar a moça e decide impedir que
seja contagiada por esse mundo de depravações, mantendo- a seqüestrada em
sua companhia. Em ''A Prisioneira'', vemos o amor exclusivista e egocêntrico do
Narrador, que é, acima de tudo, pura morbidez. Cada vez mais ele se convence
de que o amor, como qualquer sentimento, se degrada e destrói com o passar do
tempo. E para tentar interromper esse fluxo corrosivo, acaba chegando à
conclusão de que é absolutamente necessário abandonar Albertine justo no
momento em que é avisado que a moça acabara de fugir de sua casa.
''A Fugitiva'' (título simétrico de 'A Prisioneira') narra não propriamente a fuga
de Albertine e sim, primeiro, a mágoa do Narrador pelo abandono, mágoa que se
transforma em luto e pesar quando sabe da morte dela pouco depois. Mas
sobrevém o esquecimento progressivo e Albertine acaba sendo lembrança
apenas, como a avó do Narrador.
O livro se encerra com um novo encontro do Narrador com Gilberte, já então
casada com Robert de Saint- Loup, grande amigo dele.
Em ''O Tempo Recuperado'', temos um retrato da corrupção trágica de todas as
coisas. As pessoas que o Narrador julgara amar voltaram a ser simplesmente
nomes, como outrora; os objetivos que buscara tinham- se desfeito; a vida não
passa de tempo já desaparecido. Numa recepção matinal em casa da Princesa
de Guermantes, ele encontra, envelhecidas, pessoas que admirara na juventude,
e ele próprio já é um senhor de meia- idade. Mediante uma série de ocorrências
do duplo sensação/lembrança, somos transportados ao começo do ciclo. Por fim,
o Narrador conhece a Srta. de Saint- Loup, filha de Gilberte e Robert. Nela,
reúnem- se os dois caminhos (o de Swann, dos ricos burgueses) e o de
Guermantes (dos aristocratas), pois Saint- Loup descende dos Guermantes. Está
completa a catedral gótica de Proust. Então o Narrador percebe o que significava
o apelo dos vários duplos sensação/lembrança que tivera em toda a vida. Seu
papel de artista, portanto, será o de estancar o fluxo do Tempo, fixando aqueles
momentos e tudo aquilo que eles contêm. A vida vivida não passa de Tempo
Perdido, mas tudo se pode recuperar, transfigurar e apresentar "sob o aspecto de
eternidade, que é também o da arte".
''O Tempo Recuperado'', pois de modo algum se trata de uma redescoberta. De
outra parte, Du côté de chez Swann, se traduzido literalmente, daria “A respeito
do lado da casa de Swann”, ou, se forçarmos um pouco, “Para os lados da casa
de Swann”. Preferimos adotar o título já consagrado no Brasil, pois o termo
"caminho" indica melhor em português a situação do côté francês: o que, para
Proust, era um "lado" irreconciliável com outro, fica melhor como "caminho",
pois indica todo um trajeto a percorrer, uma distância a vencer, uma tarefa a
cumprir. O mesmo, portanto, para Le Côté de Guermantes - ''O Caminho de
Guermantes'' é toda a trajetória do Narrador nos salões da alta- roda.
Resta o caso de ''A Fugitiva''. Fiel à construção simétrica de sua obra, Proust
batizou os dois romances seguintes a ''Sodoma e Gomorra'' de ''A Prisioneira'' e
''A Fugitiva''. Entretanto, em 1922, publicou- se na França uma tradução de
poemas de Tagore intitulada precisamente ''A Fugitiva''. Diante disso, para evitar
mal- entendidos, Proust desistiu do título e o romance apareceu postumamente
como Albertine disparue (''Albertina Desaparecida''). Ainda hoje se discute qual
título caberia melhor ao livro; e assim, atendendo ao caráter rigorosamente
simétrico de Em Busca do Tempo Perdido, e considerando já não haver motivos
para evitar a identidade de título com uma coletânea da qual ninguém se
lembraria não fosse esse episódio, adotamos ''A Fugitiva'', que certamente
Marcel Proust preferia e teria escolhido com o tempo se tivesse vivido o
suficiente para ver toda a obra publicada em livro.
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